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Archive for the ‘Crônicas’ Category

O novo Ayrton Senna

Sim, sou daqueles milhões de pessoas que, desde a morte de Ayrton Senna, não acompanha avidamente Fórmula 1 por falta de um representande brasileiro com o mesmo carisma, o mesmo talento e desempenho semelhante (quem não gosta de comemorar?) que possa animar. Rubens Barrichelo nunca conseguiu isso. Não peguei a época do Nelson Piquet e muito menos a do Fitipaldi. Mas acordava todo domingo de grande prêmio para assistir às corridas e torcer pelo Senna, incentivada pelo meu avô, que não perdia uma. Odiava o Allan Prost e o Nigel Mansel com todas as forças, mas meu avô Saturnino dizia que o Senna não podia ganhar todas, que o carro do outro, por isso e por aquilo, era melhor, enfim, dava uma dessas explicações que eu não prestava a menor atenção. Menina não se interessa muito por isso, ainda mais menina de oito, nove anos.  Já mais crescida, vi a morte do Senna ao vivo pela televisão.

Passados uns 15 anos, há umas poucas semanas recebi um convite para assistir, no autódromo de Interlagos, ao Grande Prêmio Brasil. Não pensei duas vezes, aceitei, embora a vida esteja pedindo uns 10 fins de semana em casa sem fazer nada. A empolgação pelo esporte havia voltado no ano passado quando um certo garoto inglês negro, rico, surpreendeu o mundo faturando várias corridas. Lewis Hamilton tinha acabado de passar dos 20 anos e deixou escapar o campeonato do ano passado simplesmente por não ter suportado a pressão. Tinha o título na mão e um erro bobo na pista o fez abandonar a prova. Lamentei sua derrota.

Eu o veria correr ao vivo, ele novamente era o favorito. Mas desta vez um brasileiro tinha chance, apesar de pequena, de ficar com o título. O que já era razão suficiente para que eu passasse a torcer contra o inglês.  Felipe Massa nunca havia sequer conquistado minha atenção. Assistindo às suas corridas, suas entrevistas, sempre o achei sem qualquer expressão, apesar de os amigos mais íntimos do esporte dizerem que ele não era mau piloto e que poderia ter futuro. Viciada em informação do jeito que sou, procurei saber como andava o campeonato para não perder um detalhe do GP.

Massa tinha de vencer a corrida e torcer para que Hamilton não ficasse entre os cinco primeiros. Bastou observar a movimentação nos boxes da Ferrari para sentir a emoção. Os fanáticos em volta sempre dão um empurrãozinho na gente, claro. Quando o brasileiro ganhou a pista pela primeira vez para tentar conquistar a primeira posição no grid de largada percebi que ele havia conquistado minha confiança para sempre. Estava inteiro disposto a fazer de tudo para ganhar não só o GP mas o título. A cada volta seu tempo baixava e ele deixava para trás os outros pilotos.

Não, o sorriso apático, uma certa arrogância ao falar, aquela cara de paulistinha metido dele, nada disso tirou admiração que senti por aquele cara obstinado que eu via na pista. Focado. Concentrado. O que em muito diferia do ídolo do ano passado, o inglês de pai fanfarrão-arroz-de-festa-que-adora-entrevista e namorado de uma das Pussycat Dolls. Torci cada minuto do fim de semana por Felipe Massa, comemorei sua superação no treino classificatório, segui com os olhos todos os seus passos enquanto ele esteve nos boxes, bem em frente às arquibancadas onde eu tive o privilégio de sentar, bem ali, em frente à Ferrari, pertinho da largada. A cada volta, nem piscava para não perder a passagem de seu carro vermelho. O capacete amarelo era minha referência maior.  

Nas 10 últimas voltas do GPBrasil eu tive certeza de que Massa poderia ganhar. Ele foi campeão nas três últimas voltas, recebeu a bandeirada campeão. Mas não levou o título. Muitos segundos depois que cruzou a linha de chegada, seu rival inglês conseguiu a quinta posição pois um outro piloto mediocre, Timo Glock, o deixou passar. Hamilton havia feito uma corrida apática e segura para faturar o título chegando em quarto, quintto lugar. Não precisava ganhar. Tinha sete pontos na frente. Bastava não fazer besteira. Ele não fez. Mas havia milhões e milhões de brasileiros com Massa ali. Cerca de 150 mil cantaram seu nome e foram solidários com sua vitória-derrota. Muitos deles viram o jovem de 27 anos, menos de 60kg, crescer e virar herói, mártir, ídolo de todos os que esperaram anos e anos por alguém que fizesse sentir arrepio quando os motores começam a roncar.

Senna encontrou, finalmente, um companheiro de equipe no meu coração de criança que adorava Fórmula 1.  Até a próxima temporada, Massa.

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Polícia x polícia em SP

São 18h de uma quinta-feira quente no Rio e estou no trabalho assistindo, já faz horas, o conflito entre a Polícia Civil e a Militar em São Paulo. O conflito está sendo transmitido ao vivo pela Band e pela Record, mas eu prefiro acompanhar pela Band pois o Datena dá um ar cinematográfico ao confronto, que já deixou dezenas de feridos. A Globo, por enquanto, transmite Malhação impunemente.  O governador Serra já deu entrevista e a única coisa que soube dizer é que a greve da Civil, que motiva  o tiroteio entre policiais, a PM reprimindo a Civil, é que a ação é orquestrada por razões políticas dado o ano eleitoral! Nunca vi sair tão mal pela tangente.

Um amigo jornalista de política me explica o conflito, porque estou influenciada pela narração emotiva do Datena e não conheço as alianças partidárias de São paulo, pois tenho coisa mais interessante pra fazer na vida. Diz que a Força Sindical apóia a associação de policiais (cerca de 5 mil marcharam em direção ao palácio do governo), e que esta associação tem um líder que é chegado ao PT, e, por sua vez, a FS está associada ao PDT, oposição ao governo.  Ou seja. Uma confusão política só. Eu acho que nunca poderiam ter barrado a passeata, que era pacífica até às 15h. Ele acha que tem de barrar mesmo, afinal eram 5 mil homens armados.  Os Civis continuaram marchando, a PM jogou bomba de gás. Aí começou a pancadaria e depois o tiroteio. A PM ficou encorralada e a situação demorou horas pra ser acalmada, com os dois grupos separados.  

Não chegamos a um acordo, eu acho que o governo não deveria ter barrado a PM, ele acha que era o melhor a ser feito, afinal poderiam meter uma azeitona na cabeça do Serra. Meu amigo acha que eu o estou provocando. O fato é que duas instituições respeitadas e que atuam diretamente no serviço à população deram o exemplo de tudo o que não se deve fazer hoje.  A falta de respeito de um lado, e a falta de habilidade para negociar de outro ferem a democracia e ainda põem o cidadão como vítima. A praça de guerra parou a cidade e deixou a população sem assistência e , deixa cenário de quebra-quebra, com prejuízo ao patrimônio público e ao bolso do contribuinte.  Como confiar a estas pessoas – que apresentam total despreparo, o combate à violência se, numa situação tensa, eles simplesmente partem pra bala?  

Quanto à transmissão, aqui na redação de jornal onde trabalho muita gente tachou de sensacionalista. Eu não. Acho necessário que a TV mostre um absurdo desses. É para chocar a população mesmo, para ver se essa gente acorda na hora de votar e se aprende a cobrar das autoridades uma explicação convincente para tudo isso.  Como deixaram a situação chegar a este ponto???

Balanço: Entre os feridos, nenhum morto. Um cinegrafista da Record foi atingido, acho que por uma bala de borracha. Até agora ninguém morreu.

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Retrato triste

A cena do grupo de amigas de 60 anos da outra noite voltou à minha cabeça no fim de semana. Minha mãe acaba de completar 54. Até uns quatro anos atrás, sempre que saíamos juntas, quase ninguém acreditava que eu era sua filha. As pessoas costumavam dizer: nossa, vocês parecem irmãs. Ontem costatei que minha mãe envelheceu. Bastante. Fiquei triste. Triste pois este envelhecimento denota um claro processo de depressão cíclico.   

A mulher que me ensinou a gostar de carnaval e a por seis discos de uma vez na vitrola está cheia de rugas e tem olhos tristes. A mulher que até os 40 e poucos adorava de gabar do manequim 38 da vida inteira tem os cabelos brancos mal pintados, as unhas fracas, a pele sem brilho e não sorri.  Não. Não se trata de lamentar a perda da beleza. Não é nada disso. É a alma machucada deixando transparecer o que passa lá dentro. Como ela, eu choro. O que me lembra um poema muito melancólico de Cecília Meireles, como metáfora de uma certa tristeza de quem vê na própria vida um amontoado de infelicidades e insatisfações.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

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Tentativa de uma noite no Maya café

Maya: um lugarzinho simpático onde antes funcionava um açougue, ao som de Tom Jobim.

***

Eu queria só um sanduíche para levar. Acabei aguardando uma mesa por 10 minutos, apesar da bolsa pesada. O cardápio abriu meu apetite. Outra coisa, devo confessar, também me atraiu. Um grupo de amigas conversando animadamente, às gargalhadas, numa mesa compriiida. Todas acompanhadas de taças de vinho da casa  – não havia garrafa sobre a mesa. E todas passadas dos 60. Lembrei de mim, a falar sem parar com minhas próprias amigas, aos 15, aos 22, aos 28. Igual.

*** 

Tomo uma sopinha de entrada, abóbora com gengibre. Não as vejo desde que consegui uma mesinha na calçada. Apenas ouço as risadas. A coisa de comer só, pelo menos no meu caso, é que não consigon deixar de prestar atenção na conversa dos outros. Muitos assuntos interessantes. O casal na mesa da frente (será que são mesmo um casal? ou apenas bons amigos?) debate calorosamente o universo de Clarice Lispector. Outro dia fui ver a exposição em homenagem à escritora no CCBB. Fiquei sugestionada a ler tudo (tu-do!) o que ela escreveu.  Acho que vou fazer o mesmo que estou fazendo com Garcia-Roza: começo do primeiro livro e vou indo. Adoro o detetive Espinosa e o submundo de Copacabana.

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Muita vontade de ter um blog pessoal. Tenho escrito, cada vez com mais freqüência, em caderninhos e papeizinhos. As anotações invariavelmente se perdem. Eu as esqueço.  

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Sentar na última mesa é ótimo. Ninguém fica observando  (adoro observar os outtros, imagino que muita gente também goste) uma mulher bonita, quase 30, sozinha. A cena é meio deprê. O ruim de sentar em um lugar, digamos, tão reservado, é não ter nenhum garçom ao alcance da mão estendida.

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Bem. Não adiantou nada.  A garçonete veio até a mim dizer que a cozinha estava fechada. Volto para casa com fome e completamente de mau humor.

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Consegui começar sem nenhum tratado sobre o começo de um blog.

 

 

 

 

 

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